Por que as revistas tablets são um fracasso?


Desde o lançamento do iPad um entusiasmo me tomou pelas novas oportunidades de consumo de mídia… mas onde tudo isso foi parar? Será que deu certo, mesmo?

Eu me lembro o dia em que lançaram o iPad: meus olhos se arregalaram e, juro, minha mandíbula acabou se abrindo um pouco. O motivo disso não foi a apresentação ovacionada dos applemaníacos nem pelo ineditismo da ideia; mas sim pelo insight que aquele novo meio de consumo de mídia me provocou.  De cara, eu já podia ver o futuro e falava alto para minha esposa, técnica em enfermagem: “Está vendo, o futuro… você não percebe. Essa é a morte do papel!” ou um “Era disso que eu estava falando”.

Meu entusiasmo continuou por meses até eu adquirir o primeiro modelo (que hoje é do meu filho de 3 anos!) mas não sabia o que fazer com ele. Ou melhor eu sabia “o quê”, mas não sabia “o como” fazer! Na época eu era diretor de uma revista de moda na minha cidade, e prontamente minha ideia foi levar uma versão da revista para o iPad. Mas eu não tinha ideia das ferramentas para tal; pesquisei e desisti de estudar cocoa e xcode; eu não tinha tempo. Mas continuei de olhos bem abertos e acompanhava a primeira leva de revistas que estavam saindo. Entrei em contato com a WoodWing mas fui muito mau atendido e logo depois, me chamou a atenção as publicações da Condé Nast e a sua parceria com a Adobe. Bingo! Era o que eu queria. Fui pra cima da Adobe e consegui participar do programa beta do Digital Publishing Tools; a solução da Adobe para publicações digitais/mobile.

Enfim, eu fiz uma versão gratuita da minha revista para o iPad e 3 anos depois eu ainda não consegui viabilizar nenhum projeto de publicação digital, para nenhum cliente… eu não fiz nenhuma revista para iPad desde então. Onde será que foi parar aquela empolgação minha? Na gaveta? No futuro próximo que não vingou ainda…E os empresários? Por quantas vezes eu não os vejo chorando com as gráficas pelos orçamentos de 5 digitos e quando eu apresento um novo meio de publicar suas revistas eles se encolhem no senso-comum como quem diz “Hum, não sei!”

A minha empolgação, recentemente, já se apagou e agora sou eu que penso com cautela sobre esse tipo de publicação. O que serviu de consolo (sim, consolo mesmo!) é que isso não aconteceu somente comigo, mas com toda a indústria editorial. Vou explicar melhor; hoje eu enxergo que os tablets e sua base de aplicativos não é interessante para os apps de revistas, porque eles tendem à cair no esquecimento; pelo menos para os títulos de revistas individuais como edições únicas por exemplo. A maioria dos artigos que eu leio, vêm de outros aplicativos como o Zite, o Flipboard, Facebook e Twitter. Esses aplicativos não produzem qualquer conteúdo mas são um termômetro do que está acontecendo lá fora. Meus apps de revistas, por outro lado, perderam-se entre as muitas outras aplicações no meu iPad. E muitas delas eu nunca li.

Aqui está o porquê:

Primeiro = Oito aplicativos por dia

No ano passado, a Nielsen estima que o usuário médio (mobile) tem 41 aplicativos em seu smartphone. Em abril, um estudo da “Flurry” mostrou que o usuário médio de smartphones abre apenas oito aplicações por dia e os mais populares são o Facebook, YouTube e alguns aplicativos de jogos. E de acordo com um relatório de 2012 da Localytics, 22% de todos os aplicativos são apenas aberto uma vez. Isso te leva à uma questão: tirando os três mais populares, sobram 5 para o seu app competir.

Embora estes números são para mobiles em geral, não apenas tablets, a imagem é clara: Não há muito espaço para aplicativos de revistas. Revistas precisam de leitores extremamente dedicados para não serem enterradas no esquecimento.

Segundo = Invisível no fluxo de informação

Para piorar as coisas, apps de revistas são invisíveis aos grandes fluxos de informação que regem a web.Quando uma revista é organizada como um aplicativo (em vez de fazer um site, por exemplo) os artigos podem não ser indexados ou procurados na web.  E mesmo que pudesse, se você clicar no link do Google, ele te leva à um app de store para você comprar as edições; ele não te entrega o artigo em si e isso é perda de tempo. As revistas tiram da equação a forma mais eficiente de encontrar algo na web. O app simplesmente ignora o maior piloto de tráfego no mundo hoje.

Terceiro = monólitos antiquados

Quando eu encontrei tempo para abrir uma revista no iPad, eu me senti como se eu estivesse segurando um produto de mídia ultrapassada em minhas mãos. Isso é irônico, porque esses aplicativos tendem a ser visualmente atraentes, é verdade, com gráficos interativos, vídeos embutidos e ferramentas de navegação bem trabalhadas. Mas o layout lindo que funciona tão bem na impressão fica monolítico, quase assustador na sua forma rigida e presa para não perder a própria identidade da revista em layouts fixos.

Quatro e o mais assustador = Aplicativos de revistas não vendem

Este ano, provavelmente os tablets vão vender mais que laptops. Só a Apple vende 15 à 20 milhões de iPads em cada trimestre. Mas histórias de sucesso em aplicativos de revistas são mais difíceis de encontrar. A revista mobile não acompanha essa tendência de venda.

Isso é mostrado nas estatísticas mais recentes da Alliance for Audited Media; a AAM. Na tabela abaixo eu mostro os números, o total de assinaturas pagas para revistas de consumo contra a “réplica digital”. Em média, as 25 best-seller digitais contam com apenas 12% do total de assinaturas convencionais.

Fonte: Alliance for Audited Media

Fonte: Alliance for Audited Media

 

A Game Informer, que é de propriedade da GameStop, parece se destacar com quase 3 milhões de assinaturas digitais. Mas isso é porque a GameStop faz venda promocional: uma assinatura digital que garante descontos em jogos de vídeo-game. Outras revistas estão tendo menos sucesso no meio digital. A Wired, por exemplo, lançou sua edição de tablet em maio 2010. O número total de assinaturas pagas chegou a 850 mil até o final de 2012 – mas apenas 102 mil assinaturas estão vindo do meio digital. Ambos os números desaparecem com o número de usuários únicos mensais do site da Wired: cerca de 20 milhões.  Evidência de sucesso para revistas autônomos é ainda mais difícil de encontrar. A tentativa mais grandiosa de fazer este novo trabalho de publicação foi a “The Daily” um app da News Corp, que fechou após dois anos de operação. “The Daily” só custou US$ 0,99 por semana (lembram das lamentações dos empresários com as gráficas que eu falei no inicio desse post?), mas com um pouco mais de 100 mil assinantes na última contagem, não poderia permanecer.

Onde tudo isso foi parar?

O que aconteceu com aquela promessa? A pergunta que mais me incomoda é: No que o iPad (e para não ser injusto: os tablets em geral) se transformou? Pra que as pessoas usam?

As pessoas não leêm mais jornal… algumas revistas, talvez. Só tiram fotos para publicar em perfis de redes sociais… Games casuais; Apps diversos como cantigas de ninar até um GPS. Assistir filmes em qualquer lugar? Duvido. Nessa diversidade de aplicações o consumo de revistas digitais não vinga… e tudo conta a favor: preço, mobilidade, interatividade… o que fazer para reverter isso?

Por estas razões, empreendedores com ideias para revistas tablets não me convencem mais. Precisamos de um novo modelo de negócio e eu acredito que o futuro para a produção de conteúdo de qualidade para esse meio ainda será brilhante e promissor. Mas temos muito trabalho pela frente.

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